O Maranhão e a baboseira intelectual - Marrapá

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O Maranhão e a baboseira intelectual

Joaquim-HaickelO capitalismo finalmente vai chegar ao Maranhão. É o que prometeu o comunista Flávio Dino. À parte a ironia do destino, o que isso significa? Em tese, “modernizar” as relações políticas e de produção. De agora em diante, o patrimonialismo, o apadrinhamento e a concentração de poder nas mãos de uma única família ou grupo político vão desaparecer. Será? É o que vamos ver.

Mas além da roça de toco e das casas de taipa, da tal “oligarquia” e do IDH negativo, é preciso acabar também com outro mal que assola o nosso Estado: a estupidez intelectual. Símbolo maior do nosso atraso, ela está presente de forma marcante nas escolas, universidades, tribunais e, principalmente, na mídia – especialmente a impressa. Esta, como veremos, transformou-se num repositório de inutilidades, num esgoto a céu aberto onde as vitórias-régias do colunismo local despejam semanalmente seus dejetos.

No jornal “O Estado do Maranhão” do último domingo encontrei dois artigos que são, a meu ver, bons exemplos da nossa jequice intelectual. Vamos a eles. O primeiro, intitulado “Ano novo sem violência”, tem a assinatura do advogado José Carlos Sousa Silva. Ao falar sobre o aumento da violência na atualidade, José Carlos desfia um rosário de frases feitas e lugares comuns que deixa o leitor em dúvida se foi mesmo o professor universitário e membro da Academia Maranhense de Letras que escreveu o texto ou se foi um colegial treinando para o Exame Nacional do Ensino Médio.

Logo no início do artigo, o leitor é brindado com esta pérola do pensamento bocó tupiniquim: “As pessoas normais veem a vida humana como o bem de maior valor. Fazem de tudo para protegê-la. Têm por ela um sentimento do mais profundo respeito. Têm assim Deus no coração, no raciocínio e no comportamento (ação ou omissão)”. Uau! Que maravilha! Confesso que senti pena dos alunos desse senhor. Mas não pense você que a coisa ficou só nisso!

Depois de fazer um diagnóstico pra lá de batido sobre a violência e – como não poderia deixar de ser – citar Focault, o doutor Silva arrisca um trocadilho de dar dó: “Há milhões de pessoas em nosso planeta lutando apenas para existir, enquanto outras existem apenas para matar…” Ai, ai, ai…! Pergunto: é ou não é de morte esse trecho? Ao final, José Carlos e Silva conclama o leitor para juntos comandarem “um ano novo com resultados benéficos para todos. É importante, para isso, que cada homem e cada mulher sejam realmente humanos”. Meu Jesus Cristinho! Em 2015, só tenho um pedido: Senhor, livrai-nos da prosa adocicada e piegas de José Carlos Sousa Silva.

Mas, como diz o ditado, “não há nada tão ruim que não possa ficar pior”. Foi essa a sensação que eu tive ao ler outro texto na página seguinte do mesmo jornal, desta vez assinado por outro medalhão: Joaquim Haickel. Já tinha lido alguma coisa breve sobre essa figura no livro “Diário de um Magro”, de Mário Prata. Pensei, de forma ingênua, que Haickel tivesse alguma importância literária. Puro engano. Sua prosa – a de Joaquim, é claro! – é um amontoado de bobagens misturadas a ecos de teorias mal digeridas e frases soltas. Tudo isso num estilo caótico, pomposo e prolixo. Não há nada na escrita desse sujeito que não cheire a mofo.

Se você discorda do que eu digo, veja algumas partes do texto desse gênio das letras maranhenses, e que, não por acaso, também é membro da AML, da Academia Imperatrizense de Letras e do IHGM. O título do artigo de Haickel já é sintomático: “Que não se reclamem do caos” (talvez aqui o nobre escritor e empresário estivesse pensando nas possíveis reações do leitor ao seu próprio texto). Mas como não reagir diante de coisas desse tipo? “Quando escrevo, costumo pensar que existe o mundo e existe a palavra. Existe o nosso relacionamento com o mundo e a nossa experiência com a palavra”. Eureca! Joaquim Haickel acaba de descobrir a linguagem.

Não satisfeito, Haickel continua sua descida sem volta pelo abismo verbal e de ideias em que se meteu. Veja: “Na página em branco, na tela do computador, diante de mim está o caos do mundo e a ausência de palavra, que vou tentando ordenar, operando, deste modo, uma passagem, do vazio e a desordem, para o ordenamento de meus pensamentos e de minhas ideias”. Dá pra imaginar no que essa confusão mental iria dar, não é mesmo? Após regurgitar fragmentos de pensamentos filosóficos e bíblicos sobre o caos, nosso caótico colunista afirma que acredita “fervorosamente em todo aquele que é otimista e que encara os desafios e as dificuldades como um degrau a ser conquistado”. Não é um achado? Um primor de pensamento?

Ao final, Joaquim Haickel diz que daqui pra frente sua participação no jornal será menos frequente. Já estava ficando animado, quando ele dispara: “Mas sempre que tiver algo que eu acredite importante ser dito, voltarei aqui para conversar com você”. Como se vê, o problema do Maranhão não é só o patrimonialismo ou a corrupção. O maior problema do Maranhão talvez seja a baboseira intelectual. É ela que transforma embusteiros em semideuses, que eleva à categoria de imortais verdadeiras múmias da literatura e do jornalismo. Não basta, portanto, modernizar a política. É preciso também modernizar a nossa cultura. Do contrário, continuaremos na Idade Média.

Ivandro Coêlho, professor e jornalista.

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