Cimi questiona inquérito da PF sobre assassinato de Paulino Guajajara - Marrapá

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Cimi questiona inquérito da PF sobre assassinato de Paulino Guajajara

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) soltou nesta quarta-feira (8) uma nota de repúdio acerca da conclusão da Polícia Federal no inquérito sobre a morte do indígena Paulo Paulino Guajajara, ocorrida no dia 1º de novembro de 2019, no interior da Terra Indígena (TI) Araribóia, no Maranhão.

Conforme o relato feito pelo sobrevivente Laércio Sousa Silva, que foi baleado no braço, os indígenas foram vítimas de uma emboscada enquanto caçavam dentro do seu território.

Segundo ele, quando pararam para tomar água, ouviram barulho no mato e logo em seguida os tiros. Paulo Paulino tombou no local após receber um tiro no ouvido, não havendo tempo para se defenderem. Laércio se protegeu atrás de uma árvore, sendo alvejado nas costas e no braço direito, conseguindo escapar com o quadriciclo que estavam usando na caçada a porcos do mato. Laércio assegurou que não avistou nenhum corpo de não indígena caído no local.

A nota diz que é de conhecimento geral que os Guajajara da TI Arariboia, bem como outros povos indígenas, atuam como Guardiões da Floresta nas TIs Alto Turiaçu, Caru, Governador, Krikati e Pindaré e realizam ações de proteção do território, sendo reconhecidos pela Funai e pelo Ibama para isso, já que o Estado, que deveria proteger e fiscalizar seus territórios, não o faz. Em 2016, quatro indígenas Guajajara foram assassinados dentro de Arariboia. Dois deles eram Guardiões e nenhum desses casos foi investigado pela Polícia Federal.

Nesse mesmo contexto, em 2007, Tomé Guajajara, liderança de 60 anos, foi assassinado e, em 2008, Maria dos Anjos Guajajara, de apenas sete anos de idade, foi assassinada enquanto assistia televisão em sua casa, na aldeia Anajá, também no mesmo território. As aldeias foram invadidas por madeireiros em represália às ações de fiscalização e denúncia dos indígenas.

Nos últimos vinte anos, o Cimi registrou o assassinato de pelo menos 47 indígenas do povo Guajajara no Maranhão. Destes, 18 eram da TI Arariboia.

Sobre Paulino Guajajara, a polícia concluiu que “foi possível afastar as hipóteses relacionadas a conflitos étnicos ou mesmo por emboscada de madeireiros a indígenas, tudo convergindo para a conclusão de que o lamentável episódio se originou da troca de tiros motivada pela posse de uma das motocicletas utilizadas pelos não indígenas”, segundo passagem de uma nota da PF divulgada pelo site do jornal O Globo.

“A Polícia Federal, ao reduzir o assassinato de Paulino Guajajara a um lamentável episódio de troca de tiros, desconsidera uma história de mais de 40 anos de conflitos com madeireiros nesse território, ao longo dos quais os indígenas vêm sendo assassinados e tendo seus territórios destruídos sem que nenhum assassino seja punido”, diz a nota do Cimi, que termina exigindo uma investigação que considere as identidades, os direitos, os indícios e as vozes do povo indígena e repudiando a atuação de parte da mídia “que, ao reproduzir os argumentos falaciosos, reforça a criminalização e a posição desse governo e desse Estado etnocida.” (Revista Fórum)