Rio de Janeiro, 17 de junho de 2012.
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Tornando um povo cativo pelo medo
Quando soube da morte violenta do jornalista Décio Sá, lembrei-me imediatamente de outro assassinato ocorrido em circunstâncias parecidas na mesma Avenida Litorânea, há longínquos 15 anos: a execução do delegado Stênio Mendonça.
Nos ensina Karl Marx que a história se repete como farsa ou como tragédia.
O assassinato de Décio Sá caminha para o desfecho de uma repetição trágica da inseparável história do Maranhão com a pistolagem e o crime organizado.
Stênio morreu porque atrapalhava os interesses de criminosos que ostentavam influência em todas as esferas de poder do Maranhão.
Décio Sá morreu pelos mesmos motivos.
Durante a apuração da morte do delegado, um grupo de criminosos – o denominado bando Bel – acusados de participar da execução de Stênio, foram abatidos à bala dentro de uma viatura policial durante uma transferência suspeita.
No decorrer da investigação criminal acerca da morte de Décio Sá, Valdênio José da Silva, suspeito de participar do crime, foi executado dentro de sua casa, logo após ter sido liberado pela polícia, que alegou falta de provas de sua participação, numa sucessão de acontecimentos igualmente suspeitos.
Na ocasião da morte do delegado, a então governadora Roseana Sarney (PMDB), usou a situação como mote para propagandear o próprio governo, antes mesmo de apuradas as circunstâncias da morte do delegado e das punições aos culpados, Roseana declarava que seu governo havia acabado com a pistolagem no Maranhão.
Quinze anos depois, a mesma governadora Roseana Sarney usa a morte do jornalista Décio Sá para propagandear uma suposta eficiência da polícia na apuração do crime.
Durante uma audiência da CPMI do Narcotráfico, aberta pelo Congresso Nacional em 1999 e que fora ao Maranhão por ocasião da morte do delegado Stênio Mendonça, o então prefeito de Nova Olinda, Hemetério Weba (PV), fora preso pela polícia federal por prestar falso testemunho aos membros da comissão.
Após a prisão de Junior Bolinha, um dos supostos mandantes do assassinato de Décio Sá, outra vez o nome de Weba aparece, dessa vez por supostamente manter relações de proximidade com Bolinha.
E por aí vai…
A morte de Décio é a prova cabal de que o suposto fim do crime organizado no Maranhão, tão cantado e decantado pela governadora Roseana Sarney há 15 anos, não apenas não acabou, como se fortaleceu.
E pior:
A repetição trágica da história nos casos das mortes de Stênio Mendonça e Décio Sá acaba por gerar um efeito igualmente trágico na consciência coletiva do povo do Maranhão.
Imagino que na cabeça da maior parte da população do Estado, a morte de Décio tenha servido apenas para aumentar a certeza de que qualquer um que afronte os interesses dos “poderosos”, terá o mesmo fim.
Um dia após a morte do jornalista, um clima sombrio pairava sobre São Luís. Chocada e inerte, a população sentia medo, um medo paralisante e cego, capaz de calar a todos em meio à perplexidade generalizada.
A morte de Décio não foi apenas um atentado à liberdade de expressão, ela foi também um tiro certeiro à capacidade de resistência coletiva contra os desmandos e a impunidade no Maranhão.
No fim das contas, o jogo de cena do governo do Estado, ao propalar a rápida elucidação do crime que levou à morte de Décio, esconde um sorriso velado dos governantes.
O povo tem medo.
E um povo que tem medo, não reage. Permanece cativo.
Até onde sei, isso só pode servir aos propósitos de quem que está no poder e nele quer permanecer.
Afinal, o quer José Reinaldo Tavares?

Fico cá com meus botões pensando que a única explicação plausível para que o ex-governador do Maranhão, José Reinaldo Tavares (PSB), tenha aceitado um cargo de simples secretário municipal da semi-falida administração do prefeito João Castelo (PSDB), seja desprendimento pessoal com o objetivo único de deixar o aliado e presidente da EMBRATUR, Flávio Dino (PCdoB), com bom trânsito na prefeitura, caso João Castelo se reeleja.
O ex-governador José Reinaldo é dessas raras pessoas que em política alcançam determinado lugar de destaque muito mais por uma conjugação de acontecimentos fortuitos do que necessariamente por méritos próprios.
É verdade que José Reinaldo foi imprescindível na eleição que alçou Jackson Lago à condição de governador do Estado em 2006, mas desde então, o ex-governador quis ostentar a fama de guru da oposição, tentando posicionar-se como personagem central dos principais debates políticos travados no Estado.
Há controvérsias.
Jackson foi eleito graças à coalizão de forças, atraídas em grande parte por conta da força financeira da máquina estatal, que Reinaldo soube direcionar para os interesses de seu candidato. Além disso, o ex-governador costurou com certa facilidade uma candidatura alternativa (a de Edson Vidigal), fator importante para a vitória da oposição no segundo turno da eleição em 2006.
Parou por aí.
Sem controlar os gordos cofres públicos, a capacidade estratégica do Zé não se mostrou tão eficaz nas eleições subsequentes. Em 2008, teve presença secundária no pleito que levou seu então afilhado político, Flavio Dino, para o segundo turno.
Em 2010, o maior erro. Mais por vaidade do que por senso de oportunidade, Zé Reinaldo abriu mão de uma eleição tranquila para a Câmara Federal, em nome de uma candidatura ao Senado que revelou-se rapidamente um equívoco. Com três candidatos no campo da oposição, o ex-governador amargou a derrota e ainda teve que engolir a consolidação do retorno da família Sarney ao poder no Maranhão.
Quando soube que José Reinaldo Tavares decidira abandonar o projeto do grupo liderado pelo Presidente da EMBRATUR, para aderir ao governo Castelo, imaginei: É ladeira abaixo!
Alguns analistas saíram dizendo que tratava-se de uma jogada de mestre, uma vez que ao ir para a prefeitura, ao mesmo tempo em que se colocaria como protagonista do debate sucessório da eleição para prefeito da capital, Zé Reinaldo impediria uma possível aliança entre Castelo e o Grupo Sarney.
Sinceramente, tenho dificuldade para enxergar isso como uma “jogada de mestre”.
Ao fortalecer o governo Castelo e dividir a oposição, Zé Reinaldo parece raciocinar mais com a lógica de 2006: o poder incondicional da máquina pública. Se com esse poder, ele próprio ajudou a eleger Jackson Lago, deve imaginar que Castelo, montado na cadeira de prefeito, garantirá uma reeleição baseada na cooptação de lideranças comunitárias.
Mas, ainda que João Castelo reeleja-se prefeito da capital, o gesto de Reinaldo apequena a oposição e a ele próprio.
Apequena a oposição porque é claro que enfraquecerá sua maior liderança, Flavio Dino, que aposta as fichas na candidatura do Deputado Federal Edivaldo Holanda Junior (PTC).
Apequena a ele próprio porque ficaria ainda mais claro que a opção de Zé Reinaldo teria a ver mais com vaidades e necessidades pessoais e imediatas de sobrevivência, do que necessariamente com espírito público.
Mas, ainda quero acreditar que um ex-governador, ex-ministro e ex-deputado federal, tenha se submetido à condição de mero “secretariozinho de prefeitura” apostando num projeto maior e mais nobre.
Vamos ver.
Um sopro de renovação na política brasileira?

Holanda Junior, Manuela D'avila, Gabriel Chalita e Marcelo Freixo. Opções de renovação para um eleitorado cada vez mais cansado da velha política.
Ao lançar a candidatura de Edivaldo Holanda Júnior (PTC) à prefeitura de São Luís, o grupo liderado pelo presidente da EMBRATUR, Flávio Dino (PCdoB), segue uma tendência que parece atingir como uma onda de renovação as principais cidades brasileiras.
Capitais como Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo, lançarão candidatos com reais chances de vitória que tem em comum o mesmo carisma, juventude e discurso de renovação ostentado por Edivaldo Holanda Junior, que aparece em primeiro lugar nas pesquisas qualitativas para prefeito da capital maranhense.
A pré-candidata do PCdoB em Porto Alegre (RS) é a deputada federal Manuela D’ávila. Nas pesquisas, Manuela chega a 37% das intenções de voto, ficando à frente do atual prefeito da capital gaúcha, José Fortunati (PDT), que oscila entre 28% e 29% no segundo lugar.
Em São Paulo o também deputado Federal Gabriel Chalita (PMDB), desponta como predileto num segmento mais “moderno” do eleitorado. Carismático e com discurso leve, Chalita é uma alternativa de renovação ao velho embate entre PT e PSDB na capital paulista.
No Rio de Janeiro, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) é a alternativa ao domínio do PMDB na capital carioca. Freixo, que inspirou personagem no filme Tropa de Elite, é apoiado por grande parte da classe artística e intelectual do Rio, que vê nele a chance de solução para os grandes problemas da cidade.
As pré-candidaturas de Holanda Junior, Manuela, Chalita e Freixo refletem uma tendência de exaustão do eleitorado com as figuras tradicionais da política. Se essa tendência se confirmar, ela deve voltar com mais força ainda em 2014.
É aguardar.