
Cardoso, Luís Pablo e Washington Luiz (PT) : Clã de blogueiros interceptados nas escutas das investigações da morte de Décio Sá.
Blog Marco d’Eça - com edição
O Jornal Pequeno trouxe neste final de semana novas revelações sobre o estilo de vida dos envolvidos nas investigações do caso Décio Sá.
Prostituição, envolvimento com tráfico de drogas e farras – muitas farras! – marcavam a vida de agiotas, advogados, blogueiros e pau-mandados da agiotagem no Maranhão.
As conversas sobre estes temas compõem o relatório da Polícia Civil sobre o caso, obtido a partir de interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça.
O advogado Ronaldo Ribeiro, por exemplo, foi flagrado acertando com o “produtor cultural” Wallem de Souza, programa com prostituta no valor de R$ 250,00, segundo o JP. Fábio Aurélio Aurélio Buchecha teve um contato com traficante no Cohatrac também flagrado pela polícia.
Mas a investigação revelou também farras realizadas por blogueiros que se relacionavam com o próprio Gláucio Alencar.
A farras – “jantares, almoços e festas que duravam horas” – aconteciam geralmente no restaurante Dona Maria, mas tinham como palco também boites como Rosana Drink’s e ZeroHum.
O vereador Fábio Câmara (PMDB), depôs ontem (7) durante o segundo dia de audiências com as testemunhas de acusação, arroladas pelo Ministério Público no processo que investiga a morte do jornalista e blogueiro Décio Sá, ocorrida em abril do ano passado. O parlamentar foi o último a falar com o jornalista na noite do assassinato.
A justiça investiga a possibilidade de que mandantes do assassinato de Décio tenham sido informados previamente sobre a localização do jornalista na hora do crime. Por ter sido o último a falar com o blogueiro, Fábio Câmara foi arrolado no processo.
Também participaram das oitivas, jornalistas e blogueiros dentre os quais Marcelo Gomes Vieira, Caio Hostílio e Marco D´eça, editor de política do Jornal o Estado do Maranhão.
Sete suspeitos de atuar como agiotas foram ‘grampeados’ durante dois meses de 2012 (maio e junho) pela Polícia Civil do Maranhão. As escutas telefônicas fizeram parte de uma operação denominada ‘Blogueiro’, a cujas de gravações o Jornal Pequeno teve acesso. Elas foram pedidas à Justiça pela comissão de seis delegados que investigou o assassinato do jornalista Décio Sá, ocorrido em abril do ano passado.
A juíza Alice de Sousa Rocha, então titular da 1ª Vara do Tribunal do Júri, autorizou. Além de Gláucio Alencar Pontes de Carvalho e seu pai José de Alencar Miranda Carvalho, foram ‘grampeados’ Pedro Alberto Teles de Sousa (filho do ex-prefeito de Barra do Corda, José Mariano de Sousa, o ‘Nenzim’, e irmão do deputado estadual Rigo Teles, ambos do PV); Eduardo José Barros Costa, o ‘Eduardo DP’ (filho da ex-prefeita Arlene Costa, de Dom Pedro); Josival Cavalcanti da Silva, o ‘Pacovan’ (que, conforme a polícia, disputava negociatas em prefeituras do Maranhão com Gláucio Alencar e seu pai, Miranda); Paulo Roberto Pinto Lima, o ‘Carioca’ (ligado a Pedro Teles, segundo apurou a polícia); e Ronaldo Henrique Santos Ribeiro (advogado, indiciado pela polícia e denunciado pelo Ministério Público por envolvimento em agiotagem nas prefeituras e no assassinato de Décio Sá).
No bojo das escutas da ‘Operação Blogueiro’, também aparecem os nomes do juiz de Caxias Sidarta Gautama Farias Maranhão e do deputado estadual Marcos Antonio de Carvalho Caldas (PRB).
Em janeiro de 2010, o magistrado foi flagrado em ‘grampos’ da Polícia Federal em conversas com ‘Eduardo DP’ que revelavam indícios de agiotagem.
Por envolver um juiz, o caso foi levado à Corregedoria do Tribunal de Justiça do Maranhão, que em fevereiro passado decidiu arquivar o pedido de abertura de processo administrativo disciplinar contra Sidarta.
Nas escutas da ‘Operação Blogueiro’, o juiz Sidarta Gautama teve ‘grampeado’ um diálogo que teve em 17 de junho de 2012 com Pedro Teles. ‘O Charles sumiu do mapa (…) e ficou me devendo um monte dinheiro’, afirma Sidarta. Não fica claro na conversa quem é Charles. Pedro Teles responde que ‘aquele que mataram lá em Teresina [Fábio Brasil] também deu um monte de prejuízo’ e diz que quer falar com Sidarta pessoalmente.
Pedro Teles foi condenado, no início do mês passado, a 21 anos de prisão, como mandante da morte do líder comunitário Miguel Pereira Araújo, o ‘Miguelzinho’, assassinado em 1998, em Barra do Corda. Seus advogados recorreram e ele espera o resultado do recurso em liberdade. No dia do assassinato de Décio Sá, Pedro Teles entrou em contato telefônico com Raimundo Chaves Sales Júnior, o ‘Júnior Bolinha’, um dos principais envolvidos no homicídio.
Quanto a Marcos Caldas, que tem sua base política no município de Brejo, ele já foi sócio de ‘Júnior Bolinha’ numa loja de revenda de carros na Avenida dos Africanos (São Luís).
Segundo o que disse à polícia Patrícia Gracielli Aranha Martins, viúva do negociante de carros Fábio dos Santos Brasil Filho, o ‘Fabinho’ (assassinado em Teresina no fim de março de 2012), o parlamentar fazia empréstimos a juros. Ele teria emprestado R$ 60 mil a ‘Fabinho’ – um dos muitos que o empresário morreu sem quitar.
Nos ‘grampos’ da ‘Operação Blogueiro’, Marcos Caldas conversa várias vezes com um dos indiciados do ‘caso Décio’, o advogado Ronaldo Ribeiro. Numa dessas conversas, ocorrida em 13 de junho de 2012 – dia das prisões dos acusados de envolvimento no assassinato do jornalista –, o parlamentar fala que ‘tem um dinheiro com Gláucio pra receber de uma casa’.
‘Galinhas’ e ‘tomates’ – Diálogos interceptados de Gláucio Alencar, José Miranda, Paulo Roberto Pinto Lima, o ‘Carioca’, e Eduardo José Barros Costa, o ‘Eduardo DP’, também revelam fortes suspeitas de prática de agiotagem, embora – assim como no resto nos demais ‘grampos’ – houve um cuidado especial dos ‘alvos’ para que não aparecessem relações escusas dos supostos agiotas com prefeituras. Os quatro tratam mais de empréstimos pessoais a juros escorchantes e negócios com veículos.

‘Agiota’ Carioca, que aparece ao lado de Luís Pablo, também aparece entre os monitorados pela polícia.
Um raro caso em que a agiotagem nas prefeituras aparece é num diálogo, ocorrido em 26 de junho de 2012, entre ‘Eduardo DP’ e um homem identificado apenas como ‘Zé’. Na conversa ‘grampeada’, fala sobre seis cheques de R$ 600 mil cada da merenda escolar de Dom Pedro, que estariam nas mãos de Gláucio Alencar e foram apreendidos pela polícia.
Em outros diálogos, mais precavido, ‘Eduardo DP’ usa ‘galinhas’ e ‘tomates’ como códigos para evitar falar em dinheiro:
‘Galinha de dois, três mil contos não dá. Fala pra ver se come uma de cinco’ (16 de junho de 2012); ‘Preço do tomate: 35 e 32′ (20 de junho de 2012).
Já ‘Carioca, numa conversa com um certo Paulo, gravada em 31 de maio de 2012, é questionado ‘se tem moral com Alexandre, que está devendo R$ 15 mil para seu amigo Daniel, da Rivel’. ‘Carioca’ responde que ‘tem que armar para tomar o carro dele, pois ele tem que pagar’.
Truculência nas cobranças também é demonstrada por Josival Cavalcanti da Silva, o ‘Pacovan’. Conversando com um devedor, em 11 de junho de 2012, ele decreta: ‘Veja o que tu tem aí. Eu só quero o meu dinheiro. Vende o que tu quiser, casa, carro…’
‘Todos vão responder’ – Falando ao JP sobre as investigações da agiotagem no Maranhão, o delegado Augusto Barros, titular da Seic (Superintendência Estadual de Investigações Criminais), disse que ‘num primeiro momento, o foco investigativo é o núcleo chefiado por Gláucio Alencar e seu pai, mas a seguir todos os esquemas de agiotagem no estado serão desarticulados’.
O delegado afirmou que ‘nenhum envolvido nesse tipo de crime vai poder ficar tranquilo, pois todos vão ser presos e terão de responder na Justiça, independentemente de serem ou não ‘figurões’ conhecidos da sociedade maranhense’.
Quatro blogueiros e viúva de Décio Sá também foram ‘grampeados’
Blogueiros ‘grampeados’
O blogueiro Luís Assis Cardoso Silva (Luís Cardoso) e seus filhos Luís Pablo Conceição Almeida e Hilton Ferreira Neto (Neto Ferreira), também possuidores de blogs, assim como Marcelo Augusto Gomes Vieira, foram ‘grampeados’ na ‘Operação Blogueiro’ nas investigações do ‘caso Décio Sá’. A viúva do jornalista, Silvana Cardoso da Cruz, igualmente teve seus telefones interceptados.
A polícia pediu as interceptações porque viu ‘fortes indícios de suspeição’ (palavras constantes do pedido à Justiça), em certas atitudes dos blogueiros – que na noite do crime estavam reunidos no Restaurante Dona Maria (Calhau), para onde Décio Sá iria, antes de mudar o rumo para o Bar Estrela do Mar (Litorânea), onde foi assassinado.
Luís Cardoso, que marcou o encontro com Décio no Dona Maria, omitiu, em seu depoimento à polícia, dois números de celulares.
Luís Pablo entrou em contato por celular com o advogado Ronaldo Henrique Santos Ribeiro (um dos 12 denunciados pelo assassinato) às 22h26, ou seja, em cima da hora do crime. Ronaldo retornou para Luís Pablo logo após.
Tanto Luís Pablo como Luís Cardoso eram amigos de Paulo Roberto Pinto Lima, o ‘Carioca’, amizade que acabou em fevereiro de 2012, quando ‘Carioca’ registrou uma ocorrência no Plantão da Beira-Mar contra pai e filho, que teriam comprado R$ 30 mil em roupas com um cartão de crédito emprestado por ‘Carioca’ e pago a ele apenas R$ 9.200.
Marcelo Vieira foi ameaçado, em agosto de 2011, por Gláucio Alencar e dois seguranças (‘Alemão’ e Laércio) quando almoçava com ‘Carioca’ no restaurante ‘Cabana do Sol’ (Praia de São Marcos). Gláucio teria se irritado com postagens sobre ele no blog de Marcelo. No mesmo dia da altercação, sob a intermediação do juiz Sidarta Gautama, Marcelo foi ao apartamento de Gláucio. Depois da ‘conversa’, o blogueiro nunca mais postou nada mencionando o suposto agiota.
Já a viúva de Décio Sá, Silvana Cardoso da Cruz, foi ‘grampeada’, segundo a polícia, porque resistiu a entregar à polícia a CPU do jornalista, que estava em sua casa, e outros pertences de Décio, como o carro (Fox prata), uma bolsa, um pen drive e um notebook. Nos ‘grampos’ da ‘Operação Blogueiro’, Silvana revela, numa conversa com o também blogueiro Hostílio Caio Pereira da Costa, ocorrida em 30 de maio de 2012, que um dos irmãos de Décio, o policial militar Plínio Leite de Sá, pegou o carro, a bolsa e o pen drive antes da perícia, na noite do crime, e chegou a lavar o carro. Silvana afirmou, ainda, no diálogo com Hostílio, que Plínio também teria mexido na bolsa e até no conteúdo do pen drive.
Além das pessoas já mencionadas, também foram ‘grampeadas’ na ‘Operação Blogueiro’ ao menos outras dez: Raimundo Chaves Sales Júnior (‘Júnior Bolinha’); Fábio Aurélio do Lago e Silva (‘Buchecha’); Alcides Nunes da Silva (investigador afastado da Seic); Paulo Cícero Farias Venturini (negociante de carros de São Luís); Patrícia Gracielli Aranha Martins; Aristides Milhomem de Sousa (ex-vice-prefeito de Barra do Corda); Joab Jeremias Pereira de Castro (soldado da PM reformado e secretário de Comunicação do Partido dos Trabalhadores); Hélcio Menezes (funcionário de Gláucio Alencar); Marcelo Minardi (ex-assessor da prefeitura da Paço do Lumiar); e Francisco das Chagas (dono do Restaurante Dona Maria) (Oswaldo Viviani)
‘Décio tinha um ‘ negócio fixo’, que vinha do Senado’, diz Luís Cardoso
Numa conversa ‘grampeada’ durante a ‘Operação Blogueiro’, o jornalista e blogueiro Luís Cardoso revela a um interlocutor de nome Matias que o jornalista e também blogueiro Décio Sá recebia dinheiro do Senado Federal.
‘Ele tinha um ‘negócio fixo’ que vinha do Senado. Vinha direto na conta’, diz Cardoso a Matias em 2 de junho de 2012.
‘É por isso que nem Roseana [Sarney, governadora do Maranhão] segurava. Nem ela fez o cara parar’, completa Luís Cardoso.
Em mais uma dessas reportagens em série do caso Décio Sá – que visam mostrar o ‘eficiente’ trabalho da polícia de Roseana Sarney em época de extrema violência, justamente para salvar a cabeça do secretário de segurança pública Aluísio Mendes e tentar anestesiar a população amedrontada – o advogado Ronaldo Ribeiro, suspeito de envolvimento com a quadrilha de Gláucio Alencar, foi flagrado em escutas telefônicas relacionadas ao grupo de agiotas que tirou a vida do jornalista e blogueiro do Sistema Mirante.
Ronaldo, que é amigo do vereador de São Luís, Fábio Câmara, que por sua vez se dizia o ‘amigo da hora certa’ de Décio Sá, foi acusado de intermediar encontros entre os mandantes do assassinato de Décio em seu escritório.
De acordo com os depoimentos do caso Décio, Fábio Câmara foi intermediário de uma negociata entre Gláucio Alencar e o jornalista. O agiota queria que Décio não relacionasse seu nome ao assassinato de Fábio Brasil, e por isso pediu que Câmara, então assessor do secretário de Saúde Ricardo Murad, marcasse um encontro entre eles em sua casa.
Segundo depoimento do próprio Gláucio Alencar a policia, o acerto arranjado por Fábio Câmara foi concretizado mais tarde no apartamento do advogado Ronaldo Ribeiro, ficando acordado que Décio Sá não iria mais publicar matérias relacionando o seu nome ao assassinato ocorrido no Piauí.
O ex-prefeito de São Luís, João Castelo, aparece entre os investigados pela polícia e Ministério Público pela participação no esquema milionário de agiotagem que atuava no Maranhão, no período de 2009 a 2012.
Para financiar suas campanhas, Castelo e outros prefeitos são acusados de contrair empréstimos com a quadrilha do agiota Gláucio Alencar, que, como pagamento, recebia dinheiro público, por meio de facilitação em licitações de merenda escolar, medicamentos e programas federais.
A quadrilha montava empresas de fachada para vencer licitações direcionadas e utilizava ‘laranjas’, entre eles pessoas que já faleceram. Os recursos saíam direto de contas de programas federais – como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Em um dos depoimentos dos investigados pela morte de Décio Sá, a deputada estadual Gardeninha Castelo (PSDB), filha de Castelo, foi acusada de manter negócios com o agiota Gláucio Alencar, apontado pela polícia como um dos mandantes da execução do jornalista.
Veja o nome de todos os prefeitos investigados por agiotagem, em levantamento publicado na manhã de hoje pelo G1:
Apicum-Açu: Sebastião Lopes Monteiro
Arari: Leão Santos Neto
Bacabal: Raimundo Nonato Lisboa
Brejo: José Farias de Castro
Cajapió: Francisco Xavier Silva Neto
Cândido Mendes: José Haroldo Fonseca Carvalho
Cantanhede: José Martinho dos Santos Barros
Caxias: Humberto Ivar Araújo Coutinho
Coelho Neto: Soliney de Sousa e Silva
Cururupu: José Francisco Pestana
Dom Pedro: Maria Arlene Barros Costa
Lago Verde: Raimundo Almeida
Lagoa Grande: Jorge Eduardo Gonçalves de Melo
Magalhães de Almeida: João Cândido Carvalho Neto
Marajá do Sena: Manoel Edvan Oliveira da Costa
Mirador: Joacy de Andrade Barros
Miranda do Norte: José Lourenço Bonfim Júnior
Mirinzal: Ivaldo Almeida Ferreira
Nina Rodrigues: Iara Quaresma do Vale Rodrigues
Paço do Lumiar: Glorismar Rosa Venancio
Pastos Bons: Enoque Ferreira Mota Neto
Paulo Ramos: Tancledo Lima Araújo
Penalva: Maria José Gama Alhadef
Pindaré Mirim: Henrique Caldeira Salgado
Pinheiro: José Arlindo Silva Sousa
Rosário: Marconi Bimba Carvalho de Aquino
Santa Luzia: Márcio Leandro Antezana Rodrigues
Santa Luzia do Paruá: José Nilton Marreiros Ferraz
São Domingos do Azeitão: Sebastião Fernandes Barros
São Domingos do Maranhão: Kleber Alves de Andrade
São Francisco do Brejão: Alexandre Araújo dos Santos
São João do Sóter: Luiza Moura da Silva Rocha
São Luís: João Castelo Ribeiro Gonçalves
Serrano do Maranhão: Leocádio Olimpio Rodrigues
Sucupira do Riachão: Juvenal Leite de Oliveira
Timon: Maria do Socorro Almeida Waquim
Turilândia: Domingos Sávio Fonseca Silva
Tutóia: Raimundo Nonato Abraão Baquil
Urbano Santos: Abnadab Silveira Leda
Vargem Grande: Miguel Rodrigues Fernandes
Zé Doca: Raimundo Nonato Sampaio
As investigações que apuram a morte do jornalista Décio Sá, executado a tiros há um ano, desmontaram um esquema milionário envolvendo uma quadrilha de agiotas e várias prefeituras maranhenses. De acordo com a Polícia e o Ministério Público, o bando montava empresas de fachada para vencer licitações direcionadas e utilizava ‘laranjas’, entre eles pessoas que já faleceram.

Em um dos depoimentos, Gardeninha Castelo, filha do ex-prefeito João Castelo, foi relacionada ao agiota Gláucio Alencar.
As fraudes, segundo a polícia, envolveram 41 prefeituras municipais. Para financiar suas campanhas, os gestores contraíam empréstimos com a quadrilha, que pegava dinheiro público como pagamento. Entre elas Zé Doca, cidade com 50 mil habitantes, localizada na região oeste do Estado e com carência graves em várias áreas.
O próprio ex-prefeito, Raimundo Nonato Sampaio – conhecido como Natim, admitiu que, em 2008, realizou um empréstimo com a quadrilha no valor de R$ 100 mil e que uma das empresas de Gláucio Alencar, apontado como um dos chefes da quadrilha, ganharia uma licitação para fornecer a merenda escolar à cidade.
Gláucio Alencar e o pai dele, José de Alencar Miranda Carvalho estão presos desde o ano passado, acusados de serem os mandantes da morte do empresário Fábio Brasil, em Teresina, um ex-sócio do grupo, que deu um calote na quadrilha. Também são acusados do assassinato do jornalista Décio Sá, que apontou, em seu blog, indícios da participação do grupo no crime do Piauí.
Foi a partir desses assassinatos que a polícia descobriu o esquema de agiotagem. Segundo as investigações, o grupo agia sempre do mesmo jeito. Após pegarem empréstimos para as campanhas, os prefeitos facilitavam a licitação para empresas fantasmas dos agiotas, que eram contratadas para fazer serviços e fornecer produtos, como merenda escolar e até reformas de prédios públicos.
A quadrilha também agiu fornecendo medicamentos para os hospitais da cidade.
Outros documentos apreendidos na casa do chefe da quadrilha, Gláucio Alencar, mostram que ele usava pelo menos 35 empresas que teriam sido montadas só pra participar de esquemas desse tipo.
Segundo a polícia, 41 prefeituras estariam envolvidas nas fraudes. Alguns prefeitos, endividados, chegavam a assinar cheques em branco da prefeitura para pagar os agiotas ou preenchidos e endossados pelo prefeito para que os agiotas pudessem fazer os saques. O dinheiro saía direto de contas de programas federais – como o programa nacional de alimentação escolar (Pnae) e o Fundo de Participação dos Municípios (FPM).
Dois desses cheques apreendidos são da prefeitura de Arari, assinados pelo então prefeito José Antonio Nunes Aguiar. Um deles, no valor de R$ 102 mil. O ex-prefeito não foi encontrado para falar sobre o assunto.
Em poder da quadrilha também foram encontrados cheques da cidade de Rosário, assinados pelo ex-prefeito, Marconi Bimba. Não se sabe o tamanho das irregularidades praticadas em cada município.
Em São Domingos do Azeitão, no sul do estado, somente um dos cheques encontrados com os agiotas tem o valor total de R$ 780 mil.
Laranjas
As investigações mostram ainda a participação de pessoas que eram utilizadas como ‘laranjas’. Uma delas é identificada como Marly do Nascimento Carvalho, falecida em 9 de novembro de 2008. Ela aparece como uma das sócias da empresa JS Silva e Cia Ltda, que em 2010 venceu uma licitação junto à prefeitura de Olho d’Água das Cunhãs para fornecer merenda escolar no valor total de R$ 324 mil.
O contrato social de outra empresa, a GAP Factory, mostra Raimundo Nonato Almeida como um de seus sócios, ao lado de Gláucio. Mas ele próprio disse que nunca foi empresário e que ganha a vida como feirante.
Mesmo com as investigações, ainda não foi possível realizar um levantamento do rombo provocado pela quadrilha nos cofres das prefeituras maranhenses. Mas é possível ter uma ideia vendo o que seria a lista de patrimônio de Gláucio, escrita à mão por ele, segundo a polícia, e apreendida na casa do agiota: R$ 20 milhões.
Um outro manuscrito indicaria a renda mensal de Gláucio só com o dinheiro que vinha de prefeituras: R$ 1,7 milhões.
Como se não bastassem as acusações de compras de votos que rondam a carreira política do vereador Fábio Câmara, o aliado de Ricardo Murad ainda não esclareceu a sua participação na trama que resultou no assassinato do jornalista Aldenísio Décio Leite de Sá.
Câmara foi o intermediário de um encontro anterior ao assassinato entre Décio e Gláucio Alencar. O empresário buscava ‘negociar’ com o jornalista para que ele não relacionasse o seu nome à execução de Fábio Brasil, em Teresina.
Logo após a morte de Décio, a polícia passou a suspeitar que Fábio Câmara fosse usado pelos mandantes do assassinato para informar a localização jornalista na hora do crime. Décio e Câmara iriam se encontrar naquela noite, mas o ‘amigo da hora certa’, depois de alguns telefonemas, mudou misteriosamente de percurso e decidiu se encontrar com um tal personal trainner, enquanto o amigo era alvejado por cinco tiros no bar Estrela do Mar, na Avenida Litorânea.
Fábio foi uma das últimas pessoas a falar com Décio Sá, e por sua ligação com Gláucio Alencar, poderia muito bem ter entregado o paradeiro do blogueiro para o agiota, que depois repassou a localização para o executor, o pistoleito Jhonatan Silva, fazer o serviço.
Há informações que o secretário de Saúde, Ricardo Murad, supervisionou pessoalmente os depoimentos de Câmara para a comissão de delegados responsável por cuidar do caso. Mas sobre esta e as outras suspeitas, a Polícia do Maranhão não se manifestou.
E nem esclareceu o real envolvimento do vereador Fábio Câmara na morte do jornalista Décio Sá.
Jornal Pequeno - editado
Preso no Quartel do Comando da Polícia Militar do Maranhão desde o dia 13 de junho de 2012 – acusado pela polícia de ter mandado matar o jornalista Décio Sá – executado em 23 de abril passado – e também investigado por agiotagem –, o empresário Gláucio Alencar Pontes de Carvalho, de 35 anos, concedeu sua segunda entrevista desde que foi detido, na operação “Detonando”. Na primeira, Gláucio acusou o secretário Aluísio Mendes (Segurança) de “dirigir” a investigação, desprezando a “linha Barra do Corda”, que levava ao empresário e também investigado por agiotagem Pedro Teles. Nessas novas declarações, Gláucio reafirma a acusação ao secretário e diz ter medo de morrer, pois “com isso tudo estará resolvido para muita gente”. O empresário afirma, ainda, “esperar ansioso” pelo reinício, em 6 de maio, das audiências do “caso Décio”, interrompidas em janeiro, quando nem bem haviam começado. Acha que os depoimentos vão comprovar sua inocência e a de seu pai. Gláucio também revela ter enviado uma carta à governadora Roseana Sarney, na qual questiona as investigações do “caso Décio”. Roseana não respondeu.
Veja os principais trechos da entrevista com Gláucio Alencar:
Jornal Pequeno – Após mais de 10 meses preso no Quartel do Comando da PM do Calhau, e tendo negados pela Justiça dois pedidos de habeas corpus, qual é sua perspectiva e a de seu pai [José de Alencar Miranda Carvalho, 74 anos] de conseguirem responder em liberdade às acusações que lhes são imputadas?
Gláucio Alencar – Acredito que há nos bastidores um jogo de interesses por trás da manutenção de algumas prisões do “caso Décio”. No inquérito não há provas contra mim nem contra meu pai. Com toda a humildade, desafio qualquer pessoa encontrar uma única prova que me aponte como mandante desse crime. O que há no inquérito é mera suposição.
As retomadas das audiências do caso do assassinato do jornalista Décio Sá – que completa um ano no dia 23 próximo – serão retomadas no dia 6 de maio. Sua linha de defesa vai ser negar o crime e reafirmar o que disse ao Jornal Pequeno, de que a linha de investigação da polícia se deteve no seu nome e do seu pai e desprezou uma apuração mais profunda sobre o empresário Pedro Teles, de Barra do Corda?
Eu não tenho uma “linha” de defesa. Estou apenas falando a verdade. Comumente, quando uma pessoa é acusada de um crime como esse, aponta o dedo para outras pessoas, apenas para se livrar da culpa. Não é o meu caso, pois o diferencial do “caso Décio” é que não fui eu quem apontou para uma outra linha de investigação, mas os vários depoimentos que constam no inquérito, as ligações e escutas telefônicas, ou seja, essas situações contundentes é que apontavam para um outro lado. E isso foi admitido pelo próprio secretário de Segurança Pública do Estado, Aluísio Mendes, em entrevista ao Jornal Pequeno. Não descarto a possibilidade de a polícia ter sido induzida a erro, pelo fato de que alguns dos acusados não terem falado o que sabem sobre o caso.
Não tenho nada contra a pessoa referida na outra linha de investigação [Pedro Teles]. Porém, não entendo a razão pela qual ela sequer foi ouvida, uma vez que seu nome aparece, por diversas vezes, no inquérito e nas escutas telefônicas relacionadas ao caso. O Décio jamais escreveu meu nome em qualquer uma de suas postagens. No entanto, devassou a vida de outras pessoas – de uma determinada família [família Teles] – e o Aluísio Mendes simplesmente descartou essa linha, sem dar maiores explicações. Somente após ouvir a gravação, com a voz do secretário, falando logo após o assassinato do vereador Aldo Andrade, de Barra do Corda, entendi a razão pela qual ele descartou a motivação política tanto no “caso Décio”, como no “caso Aldo de Andrade”. Ali ele deixou claro que manipula inquéritos de acordo com suas conveniências. O secretário também disse, ao Jornal Pequeno, que explorou a fundo todo o “caso Décio”, mas se contradisse quando mencionou que não tinha conhecimento de ligações realizadas entre pessoas que podem estar envolvidas e que sequer foram depor. Afinal, ele tem ou não tem conhecimento profundo do caso? Tenho certeza de que a verdade apareceu durante o inquérito, mas foi feita “vista grossa” para ela.
No início de fevereiro, a polícia disse ter encontrado, numa vistoria na sua cela, celulares, um chip, um DVD e um pen drive. As autoridades afirmaram ainda que iriam periciar os objetos, pois desconfiavam que você continuava fazendo contatos com prefeituras e ‘cobrando’ dívidas. Passados mais de dois meses, nada foi comprovado pela polícia. Como você vê isso?
O que encontraram foi apenas um pen drive e um DVD. No pen drive só havia a cópia do inquérito. No DVD constava uma entrevista que meu advogado deu à TV Guará.
Você ainda está na cela com o ‘Buchecha’ [Fábio Aurélio do Lago e Silva, 33 anos] e seu pai? Teme por sua vida?
Sim, estou com meu pai e o “Buchecha” na cela. Depois que tive acesso ao inquérito, vi muitas coisas que realmente me assustaram no “caso Décio”. Tenho medo de morrer, sim. Sei que se essa acusação permanecer sobre mim e algo acontecer comigo tudo estará resolvido para muita gente. Mas eu confio, acima de tudo, em Deus.
Você foi ‘demonizado’ por Aluísio Mendes, sendo citado por ele como ‘chefão maior’ das máfias da agiotagem nas prefeituras do Maranhão. O que você tem a dizer sobre isso?
De fato, fui “demonizado” por Aluísio Mendes. O secretário fez várias afirmações falsas a meu respeito. Uma delas foi a de que eu possuía duas Ferraris e um imóvel de luxo no Rio de Janeiro. Gostaria de saber qual a cor desses carros, o modelo, o ano… Eu não tenho e nunca tive uma Ferrari em minha vida. Pergunto, ainda, qual o endereço do referido apartamento no Rio de Janeiro? Ele tem uma cópia do Registro de Imóveis? Poderia me mostrar? Eu não tenho e nunca tive imóveis no Rio de Janeiro. Com toda essa trama injusta acontecendo na minha vida, cheguei à conclusão de que algumas pessoas, ao acordarem, em vez de darem “um bom-dia” preferem contar uma mentira. Essas pessoas mentem tanto que não sabem, depois, nem o que acabaram de falar. Qual seria o intuito de me “demonizar” e fazer falsas afirmações? O objetivo seria jogar a sociedade contra mim e me aplicar uma condenação social, antes de que eu possa me defender juridicamente? No primeiro momento, as pessoas acreditaram, mas agora percebo que as falhas do inquérito “gritam” para a população. A versão de Aluísio Mendes já se encontra desacreditada. Ele afirmou que eu mandei matar Décio Sá e Fábio Brasil [executado em Teresina em março de 2012], e fará de tudo para manter sua versão, pois confia no seu poder. É uma briga desproporcional, como Davi e Golias. Mas, eu confio em Deus e na verdade, que há de aparecer. Não temerei e não esconderei o meu rosto, simplesmente, porque uma pessoa mandou matar o Décio e outra resolveu proteger. Nunca escondi o meu rosto, nem abaixei a minha cabeça. Não faço isso por arrogância, mas porque “quem não deve não teme”. Eu não devo e não temo.
Você escreveu uma carta para a governadora Roseana Sarney? O que dizia? Obteve resposta?
Sim, escrevi. Na carta, pedi que a governadora Roseana acompanhasse as investigações, pois algumas coisas estranhas me estavam levando a suspeitar de incoerências no inquérito. Imaginei que expondo os meus temores à governadora, diante da precipitação da conclusão do inquérito, tudo seria esclarecido. Enviei a carta, mas não obtive resposta.
Como você vê o caso Décio hoje, quase um ano depois do crime?
Décio Sá: se estivesse vivo, estaria revoltado com essa esculhambação.
Família da vítima: calada e em dúvida.
Os inocentes: presos.
Os mandantes: livres, tomando uísque.
A imprensa: a séria está cobrando a real elucidação do caso.
Aluísio Mendes: só se preocupa em manter sua versão do caso (ele se esquece do número de homicídios que não consegue controlar no Maranhão. Parece até que o único homicídio do estado em sua gestão foi o de Décio Sá).
A Justiça: com a bomba na mão. Se fizer o certo, corre o risco de ser bombardeada pela imprensa descompromissada com a verdade. Situação delicada.
Os formadores de opinião: já sabem que a versão apresentada não é verdadeira.
O povo: enganado.
Durante uma fiscalização realizada no Presídio Militar, por determinação da Secretaria Estadual de Segurança Pública. Várias irregularidades foram encontradas. Além de terem sido encontrados celulares, chips de várias operadoras, agendas e até chuços, a maior surpresa foi que, no momento em que os policiais chegaram, encontraram o preso Fábio Aurélio, o “Buchecha”, em visita íntima com uma garota de programa.
O detido, não tem esse direito, já que é preso provisório. Após flagrante, foi determinada pelo comando da Polícia Militar a abertura de um inquérito para apurar o porquê da moça estar no presídio sem autorização.
Todo o material apreendido está sendo analisado pelo delegado Rafael do Grupamento Tático Aéreo (GTA), e será encaminhado à Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic). Os policias acreditam que com a quebra do sigilo nos chips encontrado na prisão, poderão obter importantes informações sobre a ação dos detidos.