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O mínimo da decência

Por: Chico Viana

Tenho certeza que nenhum dos 361 deputados federais que votaram contra o salário mínimo de R$ 560, ou dos 376 que votaram contra o reajuste para R$ 600, não o fizeram porque achavam que tais salários exorbitavam ao atendimento do trabalhador em suas necessidades básicas, como alimentação, saúde, educação, moradia, transporte, vestuário etc… e outras nem tantas, como o distante lazer, colocado na Constituição como item a ser satisfeito pelo mínimo.

Também, tenho certeza absoluta que nenhum programa partidário tem como escopo a defesa da miséria, o arrocho salarial do trabalhador e o desafio dos princípios constitucionais. Neste caso, e por isso, nenhum partido poderia tomar uma decisão de cúpula  e enquadrar os seus membros que votassem a favor de uma matéria considerada questão fechada.

Então, o quê,  perguntam-se os brasileiros de boa fé, em especial os assalariados,  levou 100% dos parlamentares do PC do B, do PMDB,do PRB, do PRTB, do PTC, PSL, PSC e PMDB, a escolher a opção de reajuste menor de salário, os  R$ 545 determinados por D. Dilma?

O PV foi tíbio, 10 se abstiveram e dois votaram, um contra outro a favor.

Se não foi uma determinação partidária, ou uma convicção pessoal, qual a força tão poderosa que pode trazer pela brida  parlamentares, alguns até de boa cepa, e o obrigarem a um gesto tão esdrúxulo?

O Partido Comunista do Brasil votando por unanimidade contra o operário, quando é na luta do e pelo operariado que se fundamenta  todo o arcabouço ideológico da filosofia marxista-leninista? Sinceramente, deste eu não esperava mesmo, uma atitude tão abjeta. O PT a gente já conhece.

Mas o mínimo foi  ao Senado e, do mesmo modo, 54 senadores sacramentaram os R$ 35 reais a mais dos antigos R$ 510  ,ou R$ 1,16, por dia, uma fortuna!

Dos argumentos evocados, nenhum se sustenta.

Um deles refere-se à repercussão na folha de pagamento do INSS.

Sabe-se hoje que de um universo de 24 milhões de segurados do INSS, este miserável reajuste pra R$ 560 ( 6,80 %)  vai beneficiar(?) 18,7 milhões de aposentados e pensionistas. Os outros  8,7  milhões que percebem salário acima de R$ 560, R$ 561,por exemplo, o reajuste será menor, 6,41% .O impacto no orçamento do País, se o mínimo fosse a  R$ 560 seria de R$ 3.5 bilhões anuais, uma temeridade, bradam os algozes da dignidade e arautos da miséria do trabalhador.

Corta, para uma informação urgente:

O lucro do Itaú Unibanco cresceu 32,3% em 2010, para R$ 13,3 bilhões, de acordo com informações divulgadas pelo banco nesta terça-feira. O resultado ultrapassa os números do Banco do Brasil (R$ 11,7 bilhões) e se consolida como o maior lucro da história do setor bancário no país

Retorna para minhas considerações:

Como os senhores, fiquei estarrecido. Um banco, um só, ter lucros anuais correspondente a quatro vezes mais ao que seria dispendido para reajustar o salário mínimo num patamar ainda miserável, mas pretendido e aceito pelas lideranças dos trabalhadores?

Ah, mais é um banco particular e dele se utiliza quem quer, é a lei da livre iniciativa. Tudo bem, se na apoteose deste lucro fácil e indecente, capaz de competir com os mais avaros dos usurários , não estivesse o Banco do Brasil, um banco nosso, de fomento e incentivo,que, se não é para ter prejuízo, também não é uma casa de agiotagem sem nenhum freio, que especula com o capital, gerando lucro exorbitante e pagando uma miséria para quem por ele tanto contribui, o funcionário.

O Banco do Brasil nos últimos três anos, 2008 ( R$ 8.8 bilhões); 2009( 10,1 bilhões) e 2010( 11,7 bilhões)  tem sido o campeão da extorsão creditícia.

Estes mesmos aposentados e pensionistas do INSS que foram preteridos em mais R$ 15,00 no salário mínimo, é o mesmo que sustenta esta farra bancária.

Eles tomaram R$ 26.8 bilhões em empréstimos consignados, um tipo de operação sem o menor risco, já que o fiador é o salário do tomador, em cujas prestações também se embute uma taxa de seguro de vida para caso de sinistro. É o lucro mais fácil que um banco pode ter.

Não é nada, não é nada, foram 10,1 milhões de operações de crédito, contra 9,50 milhões em 2009. Uma grande maioria, mais de 20% na faixa etária de 70 a 79 anos, ou seja  empurrados pela necessidade do ônus que a velhice lhes traz ,principalmente a  doença.

O outro argumento, este não merece nada mais que um registro, é que as Prefeituras iriam a bancarrota com este aumento adicional de 15 reais. Imaginem.

O que leva as Prefeituras ao descalabro são os saques, pilhagem, a corrupção desenfreada e a céu aberto para quem quer ver.

Aqui no Maranhão, a Polícia Federal informa que em suas operações, já prendeu 18 prefeitos por rapinagem. Antes não tivesse feito, ao menos não ficaria o exemplo da impunidade, porque destes, nenhum está cumprindo pena. A Santa Liminar, padroeira dos corruptos, sempre se rende às preces de seus devotos, òbviamente não com novenas, é muito pouco para remir pecados recorrentes, insistentemente impunes e, por isso, incentivados.

Voltemos ao “rombo” que o aumento do mínimo a R$ 560 proporcionaria ao Tesouro Nacional : R$ 3,5 bilhões por ano, ou   R$ 291 milhões por mês.

A dívida pública do Brasil, estimada em setembro de 2010 era de R$ 1.626 trilhões, sendo R$ 1.199 trilhões a dívida interna e R$ 426, 65 bilhões a dívida externa.

Até aquele mês, nove meses portanto havíamos pago de juros, R$ 139,7 bilhões ou  R$ 15.5 bilhões mensais, repito mensais. Esta é a média.

E vai pagar ao trabalhador R$ 18,1 por dia  para um cidadão sustentar uma família. Dói.

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