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"Tenho medo de morrer"

Jornal Pequeno – editado

Glaucio AlencarPreso no Quartel do Comando da Polícia Militar do Maranhão desde o dia 13 de junho de 2012 – acusado pela polícia de ter mandado matar o jornalista Décio Sá – executado em 23 de abril passado – e também investigado por agiotagem –, o empresário Gláucio Alencar Pontes de Carvalho, de 35 anos, concedeu sua segunda entrevista desde que foi detido, na operação “Detonando”. Na primeira, Gláucio acusou o secretário Aluísio Mendes (Segurança) de “dirigir” a investigação, desprezando a “linha Barra do Corda”, que levava ao empresário e também investigado por agiotagem Pedro Teles. Nessas novas declarações, Gláucio reafirma a acusação ao secretário e diz ter medo de morrer, pois “com isso tudo estará resolvido para muita gente”. O empresário afirma, ainda, “esperar ansioso” pelo reinício, em 6 de maio, das audiências do “caso Décio”, interrompidas em janeiro, quando nem bem haviam começado. Acha que os depoimentos vão comprovar sua inocência e a de seu pai. Gláucio também revela ter enviado uma carta à governadora Roseana Sarney, na qual questiona as investigações do “caso Décio”. Roseana não respondeu.

Veja os principais trechos da entrevista com Gláucio Alencar:

Jornal Pequeno – Após mais de 10 meses preso no Quartel do Comando da PM do Calhau, e tendo negados pela Justiça dois pedidos de habeas corpus, qual é sua perspectiva e a de seu pai [José de Alencar Miranda Carvalho, 74 anos] de conseguirem responder em liberdade às acusações que lhes são imputadas?

Gláucio Alencar – Acredito que há nos bastidores um jogo de interesses por trás da manutenção de algumas prisões do “caso Décio”. No inquérito não há provas contra mim nem contra meu pai. Com toda a humildade, desafio qualquer pessoa encontrar uma única prova que me aponte como mandante desse crime. O que há no inquérito é mera suposição.

As retomadas das audiências do caso do assassinato do jornalista Décio Sá – que completa um ano no dia 23 próximo – serão retomadas no dia 6 de maio. Sua linha de defesa vai ser negar o crime e reafirmar o que disse ao Jornal Pequeno, de que a linha de investigação da polícia se deteve no seu nome e do seu pai e desprezou uma apuração mais profunda sobre o empresário Pedro Teles, de Barra do Corda?

Eu não tenho uma “linha” de defesa. Estou apenas falando a verdade. Comumente, quando uma pessoa é acusada de um crime como esse, aponta o dedo para outras pessoas, apenas para se livrar da culpa. Não é o meu caso, pois o diferencial do “caso Décio” é que não fui eu quem apontou para uma outra linha de investigação, mas os vários depoimentos que constam no inquérito, as ligações e escutas telefônicas, ou seja, essas situações contundentes é que apontavam para um outro lado. E isso foi admitido pelo próprio secretário de Segurança Pública do Estado, Aluísio Mendes, em entrevista ao Jornal Pequeno. Não descarto a possibilidade de a polícia ter sido induzida a erro, pelo fato de que alguns dos acusados não terem falado o que sabem sobre o caso.

Não tenho nada contra a pessoa referida na outra linha de investigação [Pedro Teles]. Porém, não entendo a razão pela qual ela sequer foi ouvida, uma vez que seu nome aparece, por diversas vezes, no inquérito e nas escutas telefônicas relacionadas ao caso. O Décio jamais escreveu meu nome em qualquer uma de suas postagens. No entanto, devassou a vida de outras pessoas – de uma determinada família [família Teles] – e o Aluísio Mendes simplesmente descartou essa linha, sem dar maiores explicações. Somente após ouvir a gravação, com a voz do secretário, falando logo após o assassinato do vereador Aldo Andrade, de Barra do Corda, entendi a razão pela qual ele descartou a motivação política tanto no “caso Décio”, como no “caso Aldo de Andrade”. Ali ele deixou claro que manipula inquéritos de acordo com suas conveniências. O secretário também disse, ao Jornal Pequeno, que explorou a fundo todo o “caso Décio”, mas se contradisse quando mencionou que não tinha conhecimento de ligações realizadas entre pessoas que podem estar envolvidas e que sequer foram depor. Afinal, ele tem ou não tem conhecimento profundo do caso? Tenho certeza de que a verdade apareceu durante o inquérito, mas foi feita “vista grossa” para ela.

No início de fevereiro, a polícia disse ter encontrado, numa vistoria na sua cela, celulares, um chip, um DVD e um pen drive. As autoridades afirmaram ainda que iriam periciar os objetos, pois desconfiavam  que você continuava fazendo contatos com prefeituras e ‘cobrando’ dívidas. Passados mais de dois meses, nada foi comprovado pela polícia. Como você vê isso?

O que encontraram foi apenas um pen drive e um DVD. No pen drive só havia a cópia do inquérito. No DVD constava uma entrevista que meu advogado deu à TV Guará.

Você ainda está na cela com o ‘Buchecha’ [Fábio Aurélio do Lago e Silva, 33 anos] e seu pai? Teme por sua vida?

Sim, estou com meu pai e o “Buchecha” na cela. Depois que tive acesso ao inquérito, vi muitas coisas que realmente me assustaram no “caso Décio”. Tenho medo de morrer, sim. Sei que se essa acusação permanecer sobre mim e algo acontecer comigo tudo estará resolvido para muita gente. Mas eu confio, acima de tudo, em Deus.

Você foi ‘demonizado’ por Aluísio Mendes, sendo citado por ele como ‘chefão maior’ das máfias da agiotagem nas prefeituras do Maranhão. O que você tem a dizer sobre isso?

De fato, fui “demonizado” por Aluísio Mendes. O secretário fez várias afirmações falsas a meu respeito. Uma delas foi a de que eu possuía duas Ferraris e um imóvel de luxo no Rio de Janeiro. Gostaria de saber qual a cor desses carros, o modelo, o ano… Eu não tenho e nunca tive uma Ferrari em minha vida. Pergunto, ainda, qual o endereço do referido apartamento no Rio de Janeiro? Ele tem uma cópia do Registro de Imóveis? Poderia me mostrar? Eu não tenho e nunca tive imóveis no Rio de Janeiro. Com toda essa trama injusta acontecendo na minha vida, cheguei à conclusão de que algumas pessoas, ao acordarem, em vez de darem “um bom-dia” preferem contar uma mentira. Essas pessoas mentem tanto que não sabem, depois, nem o que acabaram de falar. Qual seria o intuito de me “demonizar” e fazer falsas afirmações? O objetivo seria jogar a sociedade contra mim e me aplicar uma condenação social, antes de que eu possa me defender juridicamente? No primeiro momento, as pessoas acreditaram, mas agora percebo que as falhas do inquérito “gritam” para a população. A versão de Aluísio Mendes já se encontra desacreditada. Ele afirmou que eu mandei matar Décio Sá e Fábio Brasil [executado em Teresina em março de 2012], e fará de tudo para manter sua versão, pois confia no seu poder. É uma briga desproporcional, como Davi e Golias. Mas, eu confio em Deus e na verdade, que há de aparecer. Não temerei e não esconderei o meu rosto, simplesmente, porque uma pessoa mandou matar o Décio e outra resolveu proteger. Nunca escondi o meu rosto, nem abaixei a minha cabeça. Não faço isso por arrogância, mas porque “quem não deve não teme”. Eu não devo e não temo.

Você escreveu uma carta para a governadora Roseana Sarney? O que dizia? Obteve resposta?

Sim, escrevi. Na carta, pedi que a governadora Roseana acompanhasse as investigações, pois algumas coisas estranhas me estavam levando a suspeitar de incoerências no inquérito. Imaginei que expondo os meus temores à governadora, diante da precipitação da conclusão do inquérito, tudo seria esclarecido. Enviei a carta, mas não obtive resposta.

Como você vê o caso Décio hoje, quase um ano depois do crime?

Décio Sá: se estivesse vivo, estaria revoltado com essa esculhambação.

Família da vítima: calada e em dúvida.

Os inocentes: presos.

Os mandantes: livres, tomando uísque.

A imprensa: a séria está cobrando a real elucidação do caso.

Aluísio Mendes: só se preocupa em manter sua versão do caso (ele se esquece do número de homicídios que não consegue controlar no Maranhão. Parece até que o único homicídio do estado em sua gestão foi o de Décio Sá).

A Justiça: com a bomba na mão. Se fizer o certo, corre o risco de ser bombardeada pela imprensa descompromissada com a verdade. Situação delicada.

Os formadores de opinião: já sabem que a versão apresentada não é verdadeira.

O povo: enganado.

Leia a entrevista na íntegra…